domingo, 29 de novembro de 2020

A Maçonaria Francesa - Origem e conflitos

 

Rito Escocês Antigo e Aceito

A Maçonaria francesa tem uma origem escocesa. Nesse sentido, a sua história inicia com a iniciação do Rei James VI, da Escócia, em 1601 na Loja "Perth and Scone". Esse monarca escocês ascendeu ao trono da Inglaterra e Irlanda em 1603, assumindo o nome de Rei James I, da Inglaterra, iniciando a dinastia dos STUART. Uma revolução em 1715 põem fim a dinastia STUART e toda a corte inglesa se exila na França. Surge por intermédios desses nobres escoceses/ingleses a criação de Lojas Maçônicas na França no ano de 1725.


O desenvolvimento francês

Entre os anos de 1725 a 1750, a Maçonaria francesa desenvolve os graus maçônicos que formariam o Rito de Heredom (25 graus: 03 simbólicos e 22 altos graus). Em 1756 foi fundado o Conselho dos Cavaleiros do Oriente pelos burgueses. No ano seguinte foi fundado o Supremo Conselho dos Imperadores do Oriente e Ocidente pelos nobres.


A conclusão Norte-Americana.

Em 1764, o Rito de Heredom chega a New Orleans (na América do Norte), à época uma  colônia francesa. Nesse passo, em 1767 esse rito chega aos EUA (New York - Albany). Nesse período, várias pessoas estavam autorizadas a conceder os altos graus, o que causou um grande conflito entre os Grandes Inspetores.


Havia criação descontrolada de diversos outros graus para atrair filiados. O que tornou uma verdadeira desorganização e conflito entre Lojas. Com intuito de organizar o Rito de Heredom surgem em 1801, os 11 cavalheiros de Charleston, modificando a nomenclatura para o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) e fundam o Supremo Conselho (SC), responsável pelos graus filosóficos (graus 4 ao 33). Seu lema deixa isso bem claro "ordem sob o caos".

Os graus adicionais

Durante a organização do REAA foram criados graus adicionais até os atuais 33 (Grau 23 ao 27; 29; 31 e 33).


O retorno a França.

O REAA inicia seu retorno ao solo francês com as modificações realizadas nos EUA com a chegada em 1795 do Conde de Grasse-Tilly (Francês) na cidade de Charleston, onde, entre 1802/03, é investido ao grau 33. Naquele ano segue para Porto Príncipe, onde funda o SC do REAA. Em 1806 acaba por retornar a seu país de origem levando seu conhecimento sobre o novo/antigo rito. Acaba por fundar em 1810 o SC REAA francês. Fundando, ainda, a Grande Loja do Rito Escocês Antigo e Aceito (GLREAA) da França e desenvolve os graus simbólicos. No ano seguinte, o Grande Oriente da França (GOdF) faz um acordo e incorpora a GLREAA.


Conflitos entre o GOdF e o Supremo Conselho

Os primeiros conflitos surgem por volta de 1815 com o rompimento do GOdF e SC. O principal motivo foi a intervenção da GOdF na administração dos graus filosóficos que eram exclusivos do SC. Por conta disso, o SC sem ter novos membros oriundos dos graus simbólicos (administrados pela GOdF) acabou por adormecer em 1819. 


Em 1821, o SC acorda e abre Lojas Simbólicas para abastecer seus quadros a partir do 4 grau. Em resposta o GOdF proibi seus membros de ingressarem no SC, o que somente é revertido em 1841. Um novo rompimento ocorre em 1862, pois com a morte do Conde de Grasse-Tilly, os conflitos de reascendem. Em 1875 há uma nova reconciliação, porém no ano seguinte o Congresso de Lausanne denuncia o GOdF por conta da tentativa de renúncia ao teísmo.


Por conta disso, em 1877 o SC funda a Grande Loja (GL) da França  (Graus Simbólicos) para, novamente, abastecer seus quadros sem a dependência do GOdF. 


Por fim, em 1964 o SC rompe com o GLF e reconhece a Grande Loja Nacional da França (GLNF) (apoiada pela Grande Loja Unida da Inglaterra - GLUI), pondo fim as disputas internas.


Conclusões

A Maçonaria brasileira herdou da França seu modelo maçônico e seu rito mais praticado, mas não apenas isso. Herdou também seus problemas e conflitos como veremos em outros artigos.


domingo, 22 de novembro de 2020

A alvorada da Maçonaria na Grã-Bretanha

A Maçonaria como conhecemos atualmente teve origem na Grã-Bretanha (Inglaterra, Irlanda e Escócia) e as diversidades de ritos existentes surgiram da rivalidade entre as primeiras Grandes Lojas.


Na Inglaterra, em dado momento, existiram quatro Grandes Lojas Maçônicas em atividade, vejamos:


A Grande Loja de York (norte da Inglaterra): Essa Grande Loja teve Grãos Mestres desde 1558 e trabalhava com 05 graus e adormeceu em 1792 (por força de lei que obrigou sua submissão a Grande Loja da Inglaterra). Havia maçons operativos e especulativos.


A Grande Loja dos Modernos (Londres e Westminster): Fundada simbolicamente em 24/06/1717. Iniciativa de 03 Lojas operativas de Londres e 01 Loja especulativa de Westminster ("O Ganso e a Grelha", "A Coroa", "A Macieira" e "O  Copázio e as Uvas"). Muda seu nome em 1725, para a Grande Loja da Inglaterra (em virtude do conflito com a Loja de York). Chamada de Modernos porque "modernizaram" alguns aspectos dos rituais em virtude da obra "Maçonaria Dissecada" de Samuel Prichard.


A Grande Loja dos Antigos: Fundada em 1751 por membros da Grande Loja dos Modernos por não aceitarem as "modernizações" no rito implementada a partir de 1730. Foi reconhecido pela Grande Loja da Escócia e da Irlanda (Conservadores).


A Grande Loja de Preston: Fundada em 1779 por 10 Lojas em solidariedade a William Preston e teve 10 anos de duração. Também conhecida como a Grande Loja da Inglaterra ao Sul do Rio Trent. Preston foi expulso da Grande Loja dos Modernos por conta de uma pequena indiscrição no uso do avental maçônico.


Na Escócia a GRANDE LOJA DA ESCÓCIA (Antigos) foi fundada em 1736 e reclama a maior antiguidade de práticas maçônicas. Suas Lojas são bastantes independentes.


Na Irlanda a GRANDE LOJA DA IRLANDA (Antigos) foi fundada em 1725 e se declara a mais antigas em existência contínua.


Em virtude da divergência por conta das “modernizações” dos rituais tem-se no período apresentado Lojas Maçônicas com ritos diferenciados dentre os quais destaca-se os seguintes elementos: o graus além de Mestre Maçom, o uso de espadas nos rituais, o modo de reconhecimento, a cerimônia de instalação, a posição da Bíblia, do Esquado e do Compasso, o uso do avental e outros.

Essa divergências são encerradas com o projeto de lei mencionado por Laurence Dermortt que provocou a submissão das demais Grandes Lojas à Grande Loja dos Modernos (Grande Loja Unida da Inglaterra) em 1823.

Conclui-se que a rivalidade entre essas Grandes Lojas fizeram com que iniciassem uma corrida de "colonização maçônica" no velho e no novo mundo. Suas diferenças geraram a variedade de ritos e práticas maçônicas existentes atualmente.

 

sábado, 14 de novembro de 2020

Resenha do Livro "Nascido do Sangue - Os segredos perdidos da Maçonaria"

 



ROBINSON, John J. Nascidos do sangue: Os segredos perdidos da Maçonaria. Tradução Julia Vidili. 3ª ed. - São Paulo: Madras, 2014. ISBN 978-85-370-0933-8


A obra referenciada tem como ponto de partida a análise da Revolta Camponesa ocorrida na Inglaterra em 1381. Esse movimento popular foi supostamente articulado por uma sociedade secreta com sede em Londres (seria a Maçonaria?).


Dentre os objetivos da revolta tem-se como prioridade a destruição dos Cavaleiros Hospitalários de São João. Essa ordem monástica foi a herdeira das propriedades pertencentes a Ordem dos Cavaleiros Templários que foi suprimida em 13 de outubro de 1307 por manobras do Rei Felipe IV (França) e do Papa Clemente V.


Esse e outros indícios levantados pelo autor revelam uma relação entre a Revolta Camponesa, a Maçonaria e os Cavaleiros Templários, dentre elas: a identidade obscura do líder da revolta camponesa, a prioridade no ataque e destruição da Ordem Hospitalária, as explicações do autor sobre as antigas obrigações e elementos ritualísticos da Maçonaria moderna e a ferrenha oposição da Igreja a Ordem Maçônica, principalmente pelas ideias de liberdade de crença e pensamento (que podem ser originária da queda dos templários).


Com relação a identidade do líder da Revolta Camponesa há registro de um obscuro Walt Tyler (esse é o título do Oficial Maçônico responsável pela segurança da Loja Maçônica - Guarda do Templo em português). Walt Tyler foi morto durante um encontro com o Rei da Inglaterra para apresentar os termos do movimento. A morte do líder foi fundamental para que as tropas reais restabelecessem o controle sobre a multidão de revoltados, obrigando-os a capitulação.


Outro ponto importante sobre essa revolta foi a prioridade de destruição da Ordem Hospitalária. Esse fato acabou por desencadear vários movimentos revoltosos que culminaram com atos de destruição contra as propriedades (principalmente, as dos Hospitalários) e execuções contra os "traidores do país", inclusive o prior da Ordem Hospitalária. Ressalta-se, a Ordem Hospitalária foi a principal herdeira das propriedades Templárias, o que a tornou muito poderosa, tanto que existe até os dias atuais (Ordem de Malta).


O autor disserta, ainda, em vários capítulos da obra sobre as antigas obrigações e elementos maçônicos. Conclui sobre a necessidade dos antigos maçons de ajuda mútua contra um perigo que pairava sobre as suas vidas e as suas propriedades. São obrigações que indicam pessoas em fugas ou com problemas com as autoridades, à época, a Igreja e o Estado. Nesse ponto, o autor afirma que a Maçonaria é originária dos Cavaleiros Templários que conseguiram fugir da perseguição da Igreja e dos Reis Europeus.


Com essas argumentações e outros pontos de relevância apresentados no decorrer dos 25 capítulos da obra  vislumbra-se de forma clara que existem indícios históricos para a conclusão do autor, porém a origem da Maçonaria continua sendo o seu maior segredo, talvez perdido para sempre nas sombras do passado.


John J. Robinson (1918-1996) foi um escritor americano com especial interesse pela Grã-Bretanha Medieval e pelas Cruzadas. A obra não exige nenhum conhecimento esotérico ou filosófico sobre a Maçonaria para entendê-lo. Ao contrário, com uma linguagem simples e de fácil apreensão atende, perfeitamente, a demanda de leitores leigos e curiosos pelo tema. Uma obra escrita por um não maçom para qualquer público, construída por marcos históricos e uma pesquisa muito bem elaborada. Recomendo e boa leitura...




domingo, 8 de novembro de 2020

A origem histórica da Maçonaria


         Há uma concordância entre os historiadores maçônicos sobre a existência de duas espécies de Maçonaria: Operativa e Especulativa. A primeira tinha por fim a construção em pedra tendo como meio a moral (um código de conduta elaborado). A outra, e atual Maçonaria, tem por objetivo a construção moral tendo como meio o simbolismo e alegorias do antigo ofício. Enfim, ressalta-se, ainda, a inexistência de uma ruptura temporal entre essas espécies de Maçonaria e sim uma longa convivência harmoniosa por séculos.

As três  teorias mais aceitas sobre a origem da Maçonaria são: Os Rosa-cruzes, A origem templária e as Guildas romanas.


A teoria da origem Rosa-Cruz elaborada por Jean Marconis de Nègre, afirma que ela foi criada no ano de 46 d.C, por Marcos, o Evangelista. Contudo, os documentos fundamentais dessa ordem mística (Fama Fraternitatis e Confessio Fraternitatis) são datados de 1610 e 1615, respectivamente. Assim, a Ordem Rosa Cruz foi sistematizada em 1800 por maçons escoceses e a Maçonaria é anterior a Ordem Rosa-Cruz.


A teoria da origem Templária surge com a Oração de Ramsay em 1741 ou 1737, na qual sugere uma origem nobre para a Maçonaria. Nesse famoso discurso, Ramsay (um escocês  - Cavaleiro Honorífico da Ordem de São Lázaro de Jerusalém), tentou traçar uma origem nos cavaleiros cruzados (Cavaleiros de São João Hospitalários).


A teoria mais aceita é a das Guildas Romanas, na qual a Maçonaria teria origem nas guildas de ofícios que foram implantadas pelos romanos na Inglaterra e Escócia a partir do Século I até o V, com o domínio romano sobre esses povos.


Os marcos históricos que evidenciam as conclusões dos historiadores maçônicos são as seguintes:


A Carta de Bolonha (1248)  é o documento mais antigo registrando a presença de maçons especulativos. Esse documento é uma lista de 371 Mestre Maçons, inclusive especulativos (religiosos e funcionários públicos, o que evidencia uma convivência de mais de 500 anos de operativos e especulativos até 1717, no surgimento da Grande Loja da Inglaterra.


O Poema Regius - Publicado em 1840 por James Halliwel, que o datou de 1390.  São 790 linhas em rima que conta a lenda da Arte Maçônica desde o Egito, passando por Euclides até o Rei Athelstan em 926.  Origem de lendas que influenciam a Maçonaria até hoje. (Assembleia de York; Os Quatros Coroados, etc).


Os Estatutos de Schaw -  O Rei James VI nomeia em 1598 William Schaw como "Mestre de Obras".  Publica em 28/12/1598 um Estatuto para todos os maçons e Lojas do Reino. Em 1599 publica outro Estatuto no mesmo sentido.  Previsão da "arte da memória", o uso de luvas, e a existência de banquetes maçônicos, etc.


Teoria de John Locke - Em 1696, John Locke traduziu e comentou um manuscrito que tinha 160 anos e que relata a origem da maçonaria inglesa a partir de Pitágoras.


A Revolução Industrial - Proibição da Maçonaria Operativa (foi proibida para a desestabilizar a categoria e facilitar a migração para o trabalho industrial).


Conclui-se que os Maçons Operativos (construtores), com origem nas guildas romanas, gradualmente transformaram-se em Especulativos com o ingresso de outras classes tendo como data oficial dessa transição o dia 24 de junho de 1717 (GLI). Contudo, documentos históricos (como a Carta de Bolonha) sugere o convívio entre operativos e especulativos por mais de 500 anos até a precitada data. O fim dos maçons operativos provocou a perda do simbolismo original, v.g., a corda de 81 nós.


A Maçonaria Francesa - Origem e conflitos

  Rito Escocês Antigo e Aceito A Maçonaria francesa tem uma origem escocesa. Nesse sentido, a sua história inicia com a iniciação do Rei Jam...